Perfil

 Foi numa consulta de rotina que o pediatra aconselhou à dona-de-casa Neuza Sampaio Cardoso a matricular seu filho caçula na escolinha de judô. Ninguém se lembra direito da data nem do nome do doutor. Afinal, essa é uma indicação comum para as crianças agitadas e seguir o conselho é comum para as mães comuns, sempre preocupadas com o bem-estar dos filhos.

Tudo isso aconteceu em 1971, ano em que o brasileiro Chiaki Ishii conquistou bronze na Alemanha, a primeira medalha do judô brasileiro em campeonatos mundiais. Ninguém podia imaginar, mas ali, naquele consultório, começava a ser traçada a trajetória brilhante de um homem que entraria para a história do esporte mundial: o campeão olímpico Rogério Sampaio, medalha de ouro, da categoria meio-leve, na Olimpíada de Barcelona, em 1992.

 

Vida simples

Caçula de uma família de três filhos, Rogério Sampaio Cardoso nasceu em Santos, no dia 12 de setembro de 1967. Nos primeiros anos, o judô era apenas uma obrigação, cumprida à força. Com o tempo, tornou-se mais uma das atividades divertidas que realizava ao lado de Ricardo, o irmão mais velho.

Na adolescência, os jovens decidiram levar o esporte a sério e o pai, o comerciante Sidney, tinha que se desdobrar para bancar os treinos, uniformes e viagens. Nessa época, toda a família- mãe e três filhos - começou a trabalhar numa cantina de escola, de propriedade do “seu” Sidney.

Vivendo de forma simples, Ricardo e Rogério não hesitavam em abrir mão dos pequenos prazeres comuns aos jovens para investir horas e horas em treinamentos físicos e técnicos em busca de aperfeiçoamento no tatame. Tanto esforço não tardou a ser recompensado, aos 16 anos, Rogério Sampaio sagrou-se campeão paulista juvenil e, logo em seguida, conquistou o seu primeiro título internacional: Campeão Pan-americano Juvenil.

 

Sonho dourado

A conquista da medalha de bronze pelo meio-pesado Douglas Vieira, nos Jogos Olímpicos de Los Angeles, em 1984, gerou um sonho ambicioso no coração do jovem judoca: subir ao degrau mais alto do pódio e trazer uma medalha de ouro olímpica para o Brasil.

Bicampeão Pan-americano Juvenil em 85, Rogério perdeu a vaga para os Jogos Olímpicos de Seul, em 1988, para o irmão Ricardo. Naquele ano, o amigo Aurélio Miguel voltou da Coreia com uma medalha de ouro no peito e o sonho de Rogério tornou-se ainda maior. Ele viu que era possível.

Mesmo enfrentando inúmeras dificuldades com falta de recursos para viagens e treinamentos, além de uma relação tumultuada entre atletas e dirigentes da Confederação Brasileira de Judô, Rogério Sampaio não desistiu.

 

Golpe do destino

Fora dos tatames, em abril de 1991, o jovem judoca sofreu o mais duro golpe da sua vida: Ricardo, o irmão parceiro, faleceu.

Emocionalmente abalado e depois de três longos anos sem participar de uma competição oficial, apoiando o amigo Aurélio Miguel no boicote à CBJ, Rogério Sampaio iniciou 1992, ano dos Jogos de Barcelona, como um ilustre desconhecido, alguém em quem ninguém, exceto os mais próximos, “apostaria suas fichas”.

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